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Eu sou o Leão-baio. E essa também é minha casa.

03/03/2026
Por Letícia Scopel - Dra. Ciência do solo e Ecologia

Sou chamado de leão-baio, mas meu nome mesmo é Puma concolor. 

Vivo aqui muito antes das cercas, das estradas e dos rebanhos. Não apareço por maldade, nem por escolha fácil. Apareço porque o espaço onde eu caçava está desaparecendo.

Quando vocês leem que “o leão-baio voltou a atacar”, a sensação é de ameaça. Mas, do meu lado, a história começa bem, bem antes.

Durante muito tempo, eu caçava em matas contínuas, seguindo veados, tatus, capivaras e outros animais silvestres... Muitos deles hoje também cada vez mais escassos. Agora, essas áreas estão FRAGMENTADAS. Onde antes tinha floresta ou campo nativo, hoje existem lavouras e pastagens extensas, com poucas conexões entre um fragmento e outro.

Com tudo isso, caçar ficou mais difícil, mais distante e mais arriscado. 

E então surgem as presas fáceis.

Vamos combinar: ovelhas e galinhas não fogem como um veado. Elas ficam concentradas, muitas vezes sem proteção adequada, próximas à mata. Para um predador que precisa economizar energia para sobreviver, isso faz toda a diferença. Não é por minha preferência, é só uma estratégia de sobrevivência.

Pensa assim: 
Você quer comer um churrasco. Precisa ir ao mercado, comprar carne, carvão, temperar, fazer o fogo…
Mas antes de sair de casa, o telefone toca e sua mãe chama: “vem comer uma lasanha”. Não era exatamente o que você queria, mas não dá trabalho nenhum.

A escolha é óbvia.

Todos nós queremos gastar o mínimo de energia. 
Não só vocês humanos. Nós, animais, também.

Agora, um ponto importante: O JAVALI: essa espécie exótica invasora, destrutiva para o solo, para as lavouras e para a biodiversidade. Vocês humanos reclamam muito deles, né?

Pois fiquem sabendo que, aqui na nossa região, eu sou um dos poucos animais capazes de exercer controle natural sobre o javali.

Mas existe aí então um paradoxo: se existem presas domésticas fáceis, eu não vou arriscar caçar um animal agressivo e perigoso como o javali, numa área extremamente fragmentada, ainda correndo o risco de levar um tiro...

Quando o ambiente está desequilibrado, todos perdem — produtores, natureza e fauna silvestre. 

A convivência entre agricultura e biodiversidade nunca foi simples. O prejuízo do produtor é real e precisa ser respeitado. 
Mas eliminar o predador não resolve o problema. Apenas desloca o conflito e aumenta o desequilíbrio ambiental.

Algumas dicas do que fazer

Existem soluções simples, eficientes e já testadas, que reduzem drasticamente os conflitos entre produtores e fauna silvestre: 

  1. Manter e recuperar APPs e matas ciliares: Essas áreas funcionam como corredores ecológicos, oferecendo espaço para que animais silvestres encontrem presas naturais. Quanto mais conectada a paisagem, menor a chance do alimento ser o seu rebanho.
  2. Fechamento noturno dos rebanhos: Grande parte dos ataques ocorre à noite. Conduzir as ovelhas para áreas protegidas ao anoitecer reduz significativamente as perdas.
  3. Cercas adequadas e bem mantidas: Cercas reforçadas, sem vãos abertos — especialmente próximas à mata — dificultam o acesso e desestimulam novas tentativas.
  4. Evitar deixar carcaças ou restos de animais no campo: Isso atrai predadores e aumenta a chance de retorno ao local.
  5. Planejamento da paisagem rural: Propriedades não existem isoladas. Quando vizinhos mantêm áreas de vegetação e adotam práticas semelhantes, o efeito positivo é coletivo.
  6. Buscar orientação técnica e diálogo: Órgãos ambientais, universidades, ONGs e associações rurais podem ajudar a encontrar soluções específicas para cada realidade, sem criminalizar nem o produtor, nem o animal.

Quando vocês preservam áreas naturais, não estão “protegendo o leão-baio”. 
Estão protegendo o equilíbrio do sistema, a água, o solo, a produção agrícola e, nofim, a própria propriedade.

Eu não sou vilão.
Também não sou herói.
Sou somente uma parte de um ecossistema que está sendo pressionado até o limite.

A pergunta não é “como eliminar o leão-baio”, mas sim:
Como produzir e conservar ao mesmo tempo?

Porque, no fim, essa terra precisa continuar sendo produtiva: para vocês e para a natureza.

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